MEDICINA QUÂNTICA

Por Leonor Nazaré

(Excerto retirado de O Esquecimento de Si na Arte Contemporânea, 2017, tese de doutoramento consultável em https://www.uc.pt/feuc/biblioteca/repositorios)

Cannenpasse-Riffard[1] aborda questões fundamentais sobre a vida, o Universo e a consciência num livro pouco convencional de medicina e biologia quânticas, no qual encontramos postulados sobre o ser humano que divergem dos mais correntes.

O autor começa por traçar uma história dos pontos de vista animistas primitivos, dos entendimentos mágicos e energéticos da doença pelos egípcios e mesopotâmicos e a passagem à racionalidade grega de Hipócrates. Da visão holística oriental à visão racional, mecanicista e puramente materialista ocidental, fica demonstrada a perda de um sentido da globalidade dos fenómenos e dos seres na preferência por uma focalização da própria doença, especificamente considerada.

Os próprios fundamentos newtonianos da física (que separa o homem do Universo, considerado frio e indecifrável e onde ele não teria nenhum papel à partida) e cartesianos do corpo humano terão contribuído de forma determinante para a abordagem reducionista que hoje conhecemos da biologia e, em particular, da genética. A separação total entre espírito e corpo é o quadro geral dentro do qual a doença é lida como causada por agentes exógenos e pelos esforços terapêuticos centrados em vacinas, cirurgia e medicamentos químicos de grande toxicidade. A psicanálise e as correntes diversas da psicologia, apesar de um papel aparentemente contrário àquela separação, não operam a síntese necessária, para lá da leitura das pulsões e de uma economia psíquica sintomática.

Completamente ultrapassada, para o autor, a física do século XIX continua a influenciar a biologia e a neurologia. Mas é a física quântica que, segundo ele, vai permitir um entendimento dos fenómenos de consciência. Os estudos de Faraday e de Maxwell sobre o magnetismo e sobre “campos de forças” (campos electromagnéticos) e a física quântica de Planck e Fegnman enquadram a sua referência a dois princípios da dualidade onda/corpúsculo que não são fáceis ou consensuais: a propagação da onda não é uma propagação de matéria, é sim uma propagação “na matéria”; o que a onda leva no seu movimento não é matéria, mas energia. As moléculas de água do líquido contentam-se em comunicar essa energia às outras moléculas[2].

O modelo ondulatório é a manifestação de uma partícula, mas descobriu-se que as partículas subatómicas se comportam, umas vezes, como ondas e, outras vezes, como partículas. A esse nível, a matéria não existe em locais definidos, mas demonstra ter determinadas “tendências para existir”; são probabilidades que podem ser uma coisa ou/e outra. Os objectos da física clássica dão lugar, nesse contexto, a estruturas ondulatórias de probabilidades[3].

Acerca do tempo, da velocidade e da relatividade restrita, lembra-nos que, para Einstein, não há um relógio cósmico igual, a regular todo o Universo. Se este tem um pulso, o seu ritmo depende do movimento daquele que o sonda. A relatividade restrita afirma que a massa é uma forma de energia e que a energia tem uma massa. E=mC2 significa que a matéria é uma forma condensada de energia. A massa e a energia são formas diferentes da mesma coisa. A relatividade geral introduz a questão gravitacional e uma teoria do espaço curvo. A gravitação é a curvatura do espaço. A sua física é ainda, no entanto, totalmente determinista[4].

O que fica sublinhado pela teoria quântica é que o acto de observação modifica o estado das partículas subatómicas e gera indeterminação: “nous n’observons pas la nature elle-même, mais la nature soumise à notre méthode de questionnement”. Pearce terá dito que “o espírito humano reflecte o Universo que reflecte o espírito humano”. O espírito e a matéria são dois aspectos de uma mesma realidade subjacente, e o primeiro é um dado incontornável no conhecimento da realidade e das representações que faz dela[5].

A ideia de que o mundo não é constituído de objectos, mas sim de interacções, deve, assim, ser encarada no vasto mundo da biologia e da psicologia. Louis de Broglie propõe que todo o objecto macroscópico possui um comprimento de onda, um aspecto ondulatório, infinitesimal. Somos seres quânticos atravessados por múltiplas radiações e partículas. A função ondulatória (determinando a morte e o renascimento permanentes das partículas) seria uma espécie de inteligência criadora inaugural na intimidade da matéria, como se houvesse um projecto, um sentido ou uma lei subjacente a todo o Universo[6].

As experiências de Thomas Young (1773-1829) revelam que a realidade observada está ligada ao ponto de vista adoptado pelo observador. Se se coloca uma pergunta de natureza ondulatória ao electrão, a sua resposta será ondulatória. Se se coloca uma pergunta de natureza corpuscular, a sua resposta será corpuscular. A ligação entre espírito e matéria parece evidente. E, por isso, a teoria quântica deve enquadrar uma nova visão do mundo com as suas dimensões epistemológicas e espirituais próprias[7].

A experiência de Alain Aspect mostra, por exemplo, o contacto inexplicável entre dois fotões que se afastam em direcções opostas, sendo a modificação da polaridade de um deles acompanhada pela do outro, mesmo que se encontrem a quilómetros de distância. As noções de espaço e de tempo ficam por isso alteradas. As relações entre os dois fotões são de ordem imaterial, energética.

Para alguns físicos, a consciência deveria ser um elemento essencial na compreensão dos fenómenos naturais. Campo e partícula são manifestações complementares de uma mesma coisa. A realidade é um conjunto de campos em interacção, e a partícula manifesta-se como resultado da excitação desses campos. A ideia de matéria é subsumida na de campo. O astrofísico Michel Cassé afirma que “o vazio é o estado latente da realidade, a materialidade é o seu estado manifesto, e o campo é repentinamente quantificado quando a partícula aparece”[8].

O vazio está cheio de campos… O que faz o vazio passar à sua manifestação? Que ordem matemática (eterna, infinita) gere essa passagem? Como surgem as matrizes da vida, as cadeias de ADN no fluxo vazio imenso e aparentemente caótico? Um ser vivo é um verdadeiro vórtex de matéria e de energia; a que estádio da organização da estrutura surge a consciência? As partículas também têm nelas algum grau de consciência? É preciso elaborar uma mecânica quântica da consciência[9].

Riffard propõe que se considere a pessoa como corpo quântico que se auto-observa: “en créant un réseau d’interactions positives (…) ou négatives (…) où sa conscience ou son soma interagissent en permanence. Cette auto-observation constitue un véritable collapse de la fonction d’onde (…) où tous les états (…) oscillant entre santé et maladie sont à l’état virtuel. La fonction d’onde s’effondre en provoquant l’actualisation de l’un ou l’autre de ces états”. A interacção espírito/cérebro ou consciência/cérebro seria análoga a um campo de probabilidades descrito pela mecânica quântica, campo que não possui massa nem energia mas que pode, num micro-sítio, causar uma acção que tem efeitos[10].

A dualidade espírito/corpo (espírito/cérebro) no Homem é um reflexo da dualidade onda/partícula subjacente a tudo o que existe, do ponto de vista do cientista Danah Zohar. O ser humano seria então um minúsculo microcosmos de ser cósmico: “dans notre être essentiel, nous sommes formés de la même substance, et notre cohérence est assurée par la même dynamique que celle expliquant tout ce qui est dans l’univers”. A partir deste entendimento da consciência, podemos formular a hipótese de que somos mais que neurónios e que o espírito é outra coisa que não um simples subproduto do funcionamento cerebral[11].

A realidade misteriosa do vazio quântico está relacionada com o facto de a matéria poder sair do vazio se uma grande quantidade de energia for implicada. Em última análise, tudo é energia. Talvez existamos para acrescentar movimento e palavras à matéria e ao Universo. O homem é necessário à autoconsciência do todo. Nós e as estrelas somos feitos de uma matéria rara no Universo. Sobre a outra, 90 a 99% do Universo, não sabemos nada[12].

A actividade rítmica da matéria viva está presente a todos os níveis da natureza: “les atomes sont des modèles d’ondes de probabilité, les molécules sont des structures vibrantes et les organismes sont des modèles de fluctuations multidimensionnels interdépendants. Les plantes, les animaux et les êtres vivants traversent des cycles d’activité et de repos et toutes leurs fonctions physiologiques oscillent suivant des rythmes à periodicités diverses”[13].

O ADN é o órgão director dos ritmos circadianos. Estes são a oscilação fundamental de qualquer ADN ao potencial da sua própria corrente fotónica. “Les rythmes biologiques peuvent être régis par des photons, et en particulier les rythmes circadiens sont régulés. Mis en route et interrompus par des influences lumineuses déterminées”. A característica rotativa da matéria viva, os planos de polarização, a dissimetria estão em consonância com movimentos do Universo. A auto-estruturação da matéria viva faz-se a partir de estruturas dissipativas, que deslocalizam energia criando ritmos no espaço e formas na matéria. Assim, conclui: “l’hypothèse de l’existence d’une sorte d’insinuation de l’Esprit au sein de la matière n’est pas à écarter. Ubiquitaire et intemporelle, cette entité sans nom, douée d’une imagination active et débordante est cette ‘idée directrice’ qui crée et entretient la structure de la matière depuis l’atome, la molécule, le tissu, l’organe”[14].

A importação da física quântica para a biologia permite, hoje, ver a célula como um suporte ou campo de ressonância e perceber que os mecanismos profundos da biologia são regidos por campos electromagnéticos. A esta noção deve associar-se a de campos morfogenéticos de Sheldrake, a de campos magnetobiológicos de Émile Pinel, os estudos do ADN como ressoador eléctrico por Lakhovsky. Para David Bohm, o fotão e o ADN são estruturados segundo um mesmo modelo: a dupla hélice é o local ideal de encontro da luz solar com a matéria. Para ele, a matéria é luz “condensada”. O ADN seria a fase de separação entre a luz e a matéria biológica. Para Pinel, “as propriedades rítmicas do campo gravitacional intranuclear associado ao campo magnético do universo físico – ritmo cósmico, ritmo biológico – regem os nossos relógios biológicos internos”[15].

[1] Raphaël Cannenpasse-Riffard, Biologie, médecine et physique quantique, [1997], Embourg (Belgique): Résurgence, 2011.

[2] Ibidem, p. 65.

[3] Ibidem, pp. 69-70.

[4] Ibidem, pp. 74, 77 e 81.

[5] Ibidem, pp. 86-87.

[6] Ibidem, pp. 88-89 e 91.

[7] Ibidem, p. 98.

[8] Ibidem, p. 114

[9] Ibidem, pp. 115 e 119.

[10] Ibidem, p. 128.

[11] Ibidem, p. 134.

[12] Ibidem, pp. 141-142,145-146, 158 e 162.

[13] Ibidem, p. 180.

[14] Ibidem, pp. 184-185 e 194.

[15] Ibidem, pp. 209, 223 e 229.

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